Transliteração. Por trás dessa palavra pouco conhecida, esconde-se uma diversidade de práticas de escrita. Descrevo-lhe um exemplo francês de grande qualidade: os Voisins du 12 bis.
Aujourd’hui, le Storytelling, ou l’art de raconter des histoire, est omniprésent. Jadis réservé aux poètes, aux romanciers ou encore aux scénaristes, il envahit à présent chaque sphère de la culture et de la communication. Avec les réseaux sociaux, il explose et se transforme en une des fondations du digital marketing.
Mais cette multiplicité des médias sur lesquels la narration exerce son emprise induit un phénomène encore trop peu pris en considération. Et très peu enseigné dans les écoles. Je veux parler de la Transliteração.
O que está por trás dessa expressão bárbara?
Transliteração: uma definição
A escritora britânica Sue Thomas en donne une définition claire et complète :
«A capacidade de ler, escrever e interagir através de uma variedade de plataformas, ferramentas e meios de comunicação, desde a iconografia à oralidade, passando pela escrita manuscrita, a edição, a televisão, a rádio e o cinema, até às redes sociais.»
Ao contrário do que se possa pensar, transmedia não é escrever a mesma história em diferentes meios de comunicação. Trata-se, antes, de de um mesmo universo presente em vários meios de comunicação. Mas no qual diferentes elementos se complementam e enriquecem mutuamente.
Um dos melhores exemplos que já vi em francês até agora é a série radiofónica Les voisins du 12 bis, da Radio France Internationale. Este podcast para aprender francês também está disponível em inglês, espanhol, português brasileiro, chinês, russo e árabe. Tive a oportunidade de ver como era montado um episódio da série enquanto estava nos estúdios para gravar os diálogos para Bonjour, France (rebatizada desde então como Karibou).
Uma transliteração baseada num workshop de escrita
A série é um podcast com 13 episódios. Foi produzida por equipas profissionais. Mas a história baseia-se em relatos escritos numa oficina de escrita com os verdadeiros moradores de um prédio parisiense real. O episódio da senhora que dá à luz na escada, por exemplo, foi-me contado por uma pessoa que participou nele...

O resultado é uma história particularmente credível e realista. Um realismo reforçado pela qualidade da banda sonora, criada com as mais recentes técnicas de som imersivo. Ouça-a com auscultadores ou auriculares e ficará surpreendido com a sensação de imersão no espaço sonoro.
Além disso, cada episódio vem acompanhado de uma transcrição que pode ser sincronizada com a banda sonora. Assim, pode ler a história enquanto a ouve. Isso representa uma ajuda valiosa para os alunos.
Mas, os Vizinhos do 12 bis não são apenas um podcast. É todo um universo dedicado à aprendizagem do francês em relação às histórias desses vizinhos.
Exercícios baseados na história e nos diálogos
Cada episódio é acompanhado por uma série de exercícios, realizados com H5P, uma série de aplicações pedagógicas bem conhecidas dos leitores deste blog.
Neste primeiro episódio, Billie, uma das personagens chega ao aeroporto Charles de Gaulle. As perguntas referem-se à sua chegada, à greve que abala o aeroporto nesse dia (já disse que a série era realista...), etc.
Você dirá: isso é clássico: na nossa turma também fazemos esse tipo de exercício: compreensão auditiva. É verdade. Aliás, eu dei um exemplo disso com o nosso diálogo criado com Dupdub.
Mas eu falei sobre transmídia e transliteração.
Transliteração e transmídia: o percurso da banda desenhada
Além do podcast, o site oferece uma banda desenhada.
A banda desenhada continua a sua jornada, exatamente como fazia o podcast. Nela, vemos Billie a sair do avião, sem entender por que não há comboio (já sabem, a greve...).
Mas, você observará que aqui faltam algumas frases. Alguns diálogos não estão presentes.
É a transliteração que explica essa diferença. Eu disse logo no início: cada meio de comunicação tem o seu tipo de escrita. E a banda desenhada, pelo seu recurso à imagem, precisa de menos palavras para expressar a mesma realidade. Não está escrito, mas compreende-se que Billie está perdida, angustiada, que está a pedir ajuda ao telefone. Enquanto que o podcast era obrigado a dizer-lhe isso e a fazê-lo ouvir. É a sua memória auditiva — as suas lembranças de viagens de comboio — que suplanta a atmosfera sonora da estação. São as imagens que lhe contam o seu isolamento no aeroporto, isolamento realçado pela cor diferente da sua silhueta no meio da multidão, marcado ainda mais pela distância física das outras pessoas (imagem três).
Três tipos de meios de comunicação inseridos num universo mais amplo
Já temos três tipos de conteúdos que utilizam diversos meios de comunicação:
- um podcast, com roteiro elaborado em um workshop de escrita e utilizando técnicas sonoras de ponta, com transcrição sincronizada;
- uma parte «exercícios» que utiliza abundantemente multimédia: perguntas de escolha múltipla, gravações de áudio, ilustrações, etc.
- banda desenhada que expressa de forma gráfica a história de diferentes personagens
Tudo isso não está disponível em qualquer lugar, mas no site Le français facile avec RFIOu seja, um local virtual onde o aluno pode encontrar uma mina de recursos de aprendizagem relacionados. Sem qualquer outra ligação com a nossa história de vizinhos além da aprendizagem do francês.
Isso ancora o universo dos vizinhos numa realidade mais ampla. Uma realidade na qual o aluno decide participar ou não, ampliar os seus horizontes ou, pelo contrário, concentrar a sua ação de aprendizagem apenas no universo dos Vizinhos do 12 bis.
A transliteração, o futuro da aprendizagem?
Estou convencido de que este tipo de universo multimeios e transmídia constitui o futuro da aprendizagem.
Vivemos num mundo saturado de meios de comunicação: cada um de nós carrega mais de uma centena deles no bolso, no nosso smartphone. Mas quantos deles dominamos? Que meios de comunicação nós ou os nossos filhos somos capazes de criar?
No entanto, experiências desse tipo estão a se multiplicar, romances estão a ser transformados em filmes, filmes estão a se tornar séries derivadas, sagas como Star Wars estão a ser adaptadas tanto para o cinema quanto para séries de televisão, livros e fanzines, revistas escritas por fãs e cuja qualidade, às vezes, não fica atrás da obra original.
Com a democratização dos meios de comunicação eletrónicos, todos deveriam ser iniciados na transliteracia, na escrita em diferentes meios de comunicação, tal como somos na escrita. Uma escrita que continua a dominar a sala de aula, enquanto declina em todos os outros lugares. Descubra o erro.
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